domingo, 19 de abril de 2009

Poder de um Jovem/ The Power of One - Bryce Courtenay


O motivo de estar postada a capa do livro em inglês deve-se ao fato da minha leitura ter sido realizada no idioma original (inglês), afinal o autor desse romance é o escritor australiano Bryce Courtenay, e provavelmente este livro não foi traduzido para o português. Contudo a história pode ser familiar a alguns de vocês, já que em 1992 foi lançado um filme baseado na obra, contando com atores de renome como Armin Muehler-Stahl e Morgan Freeman,
e o filme fez muito sucesso, inclusive no Brasil, apesar da adaptação ter simplificado demais a narrativa.
Recomendo este livro às pessoas que pensam (ou pensavam como eu) que entendem alguma coisa sobre a África do Sul, pois nesta leitura aprendemos quais e como são as diversas nações que compõem a população deste país, com suas 7 línguas e peculiaridades tribais que ainda não são compreendidas mesmo hoje. Basicamente existe uma nação dominante na África do Sul durante o desenrolar da história (entre décadas de 20/50) , que são os ingleses; estes tem o poder militar e político, mas são uma minoria, odiada por outros brancos: os Afrikaners (descendentes dos holandeses, alemães e franceses que haviam chegado 300 anos antes), porém tolerada por uma maioria negra, conformada com os abusos e opressões por parte do estado e população Euro-descendente.
O que me atraiu neste livro principalmente foram as lições de determinação e ousadia, além de acompanharmos a evolução da racionalidade do personagem principal, que começa muito sensível e emocional, e aos poucos torna-se mais calculista e estrategista. Um exemplo disso é a ausência do famoso clichê da "namorada do herói", ou seja, o autor conseguiu evitar a menção do amor ou de qualquer cena romântica ou sensual, o que em minha opinião deixou a leitura mais agradável e fluente, concentrando-se nos fatos, e não em sensações.
A história começa com o garoto inglês Peekay, dotado de etnia inglesa porém vivendo em território predominantemente "Afrikaans", ele sofre discriminação racial em sua escola, porém apesar de resistir corajosamente as humilhações e agressões de seus "coleguinhas", ele descobre no boxe uma chance de se vingar de seus oponentes, e vai aprender com um descendente de africanos numa prisão local. Conforme passa a conviver mais com as outras tribos africanas, ele passa a aprender sua línguas, ética e misticismo, porém ele é esperto o suficiente para não deixar nenhum branco sabendo, o que lhe causaria problemas naturalmente. Enquanto dedica-se às lutas, torna-se amigo de um pianista que lhe ensinará como se tornar observador, e apreciar a música, a natureza e o conhecimento científico.
Enquanto o tempo passa, o personagem vai percebendo as mudanças de sua sociedade, e conforme vai se aperfeiçoando fisicamente e intelectualmente, começa a participar ativamente na
ajuda humanitária, educacional e material para os povos segregados por um regime institucionalizado ao final da segunda guerra mundial, quando o partido nacionalista, fundado pelos Afrikâneres derrota os ingleses nas urnas, e cria então o sistema do Apartheid, motivando o exílio do nosso herói para outro país para trabalhar como minerador: a Rodésia, onde encontra mais violência e opressão, porém de uma forma desorganizada e não tão direcionada como na África do Sul.
Longe de sua família, amigos e inimigos, ele consegue portanto chegar a um ambiente similar ao inferno, porém lá finalmente descobre o valor da amizade, da cooperação e da responsabilidade, para poder sobreviver em um local de altíssimo risco de mortalidade. Ao poder enxergar um futuro tão sombrio para a África ele se conscientiza inviablidade de seus ideais de ajudar os africanos, e vai embora para a terra de seus descendentes no Reino Unido em busca do sucesso, principiando um ritual a ser seguido até os dias de hoje: o retorno voluntário dos brancos à sua verdadeira terra (Europa).

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Terceiro Homem - Graham Greene


Greene, Graham
O terceiro homem, LP&M Pocket- 2008
Preço Sugerido: R$ 8,00

Bem, esse eu peguei para ler no metrô. Na ida já estava na metade e na volta já havia acabado.

Tão bom quanto "Nosso homem em Havana", este livro nasceu como um argumento direto para o cinema. Seguindo o estilo 'detetive de guerra', a narrativa é rápida e intrigante, Graham, parte para Viena, que, após a derrocada da 2ª guerra é partilhada, assim como a Alemanha, por quatro nações (Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética), Rollo Martins, escritor de subliteratura, à convite de seu amigo de infância Harry Lime, viaja até a cidade para reencontrá-lo após longo período de distanciamento.

Ao chegar, descobre que seu amigo falecera, aparentemente em um acidente banal.

No cemitério, para acompanhar o enterro acaba conhecendo a ex-namorada de Harry, Anna Schimdt, bem como o policial Calloway, da Scotland Yard, que não explica os motivos que o levaram até ali.

Aproveitando-se da ocasião e da queda de Martins por álcool, Calloway lhe oferece uma bebida e no bar acaba contando que Harry era investigado pela polícia, porém não lhe informa o porquê.

Financeiramente arruinado, Martin, é ajudado pelos estranhos colegas do seu falecido amigo, mas começa desconfiar do excesso de gentilezas que recebe por todos os lados. Parte então pela cidade para tentar compreender como era vida de Harry no ambiente caótico da metrópole ocupada, iniciando uma atabalhoada investigação.

Tudo parecia encaixar-se razoavelmente bem, a não ser pelo fato de que após conversar com o ex-vizinho de Harry este aparece morto. Dessa forma, começam a ser desencadeados eventos cada vez mais parecidos com a ficção barata de seus livros, com a diferença que desta vez, Rollo, poderá ser o próximo a morrer. Ao invés de partir o mais rápido possível, o protagonista permanece para resolver o mistério e acaba apaixonando-se pela ex-namorada de seu falecido amigo, que assim como ele, corre perigo.

Da mesma forma, Rollo Martins deverá também correr contra o tempo para desvendar quem era o terceiro homem presente na hora da morte de Harry Lime, salvar sua paixão dos Russos e descobrir o terrível segredo de seu amigo.

Pode não ser a melhor sinopse que já fiz, mas está aí. Vale a pena ler o livro.
Boa leitura.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

ANTÍGONA (de Sófocles)

Antígona,
Sófocles, ed: L&PM Pocket, vol. 173, 2006


"Picket lines and picket signs
Don't punish me with brutality
Talk to me
So you can see...
what's going on".

Marvin Gaye

Poderia ser considerado uma tragédia, mas não é.

Antígona de Sófocles, que arrumei meio por acaso na Martins Fontes, veio bem a calhar. É tanto uma tragédia em si, como um conflito metafísico e ontológico entre o positivismo e o jusnaturalismo. Não esperava tanto!

Vamos ao contexto:

Terceira parte da triologia tebana, Antígona, filha de Édipo e Jocasta, que tinham mais três filhos, Etéocles, Ismene e Polinice. Foi a única filha que não abandonou seu pai, Édipo, quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos. Seu irmão, Polinice, tentou convencê-la a não partir do reino, mas Antígona, altruísta, acompanhou o pai em seu exílio até sua morte.
O início do livro se dá quando volta de Tebas e encontra seus irmãos brigando pelo trono.

Ocorre, que pela violência da luta, ambos morrem. Creonte, tio deles, herda o trono, faz uma sepultura com todas as honrarias à Etéocles, e deixa Polinice onde caiu, proibindo qualquer um de sepultá-lo sob pena de morte.

Antígona, inconformada, tenta convencer a irmã (Ismene) a enterrá-lo, pois, quem morresse sem os rituais funebres, seria condenado a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado.

Desaconselhada pela irmã que teme a fúria do Tio, bem como a pena capital imposta por este a quem tivesse a audácia, enterra mesmo assim Polinice com as próprias mãos.

Creonte ao ser avisado de que alguém enterrara seu desafeto, culpa um dos guardas de plantão e manda desenterrar o insepulto.

Após de descobrir que o cadáver recebera novamente o ritual fúnebre, Creonte ordena a soltura do guarda e posteriormente, conhecendo a autoria, manda prender Antígona e Ismene.

Creonte aqui representa o Estado Tirânico, é o juiz, o júri e o carrasco num só. Soberbo e cegado pelo poder, não quer dar ouvidos aos argumentos das acusadas, mas sim aplicar imediatamente a letra fria da Lei, condenando ambas à morte. Mas seguindo as palavras do velho e sábio Corifeu, deixa-se convencer a dar ouvidos às irmãs. Ismene, apesar de covarde, assume toda a culpa. Antígona desmente a irmã e esta é imediatamente libertada.

Daí, ao defender-se sozinha, Antígona, invoca o direito natural, que tem por fundamento a razão divina, perfeita e acabada e que, por isso, seria maior que a lei dos homens, imperfeita e incompleta. Apela aos deuses gregos, pois esta lei (jus naturae) já estaria cravada no coração da humanidade, sendo impossível de ser alcançada pela tirania de seu tio (jus civile):

CREONTE
- mesmo assim ousaste transgredir minhas leis?
ANTÍGONA
- Não foi, com certeza, Zeus que as proclamou, nem a Justiça com trono entre os deuses dos mortos as estabeleceu para os homens.

Assim, a personagem, abala todo o sistema legal vigente. Ao perceber que Antígona planta no coração dos cidadãos o questionamento à ordem estabelecida, fica mais evidente à Creonte a necessidade de eliminar sua insurreta futura nora.

Vendo que sua noiva seria iminentemente executada, Hemon, apela ao pai para que não condenasse Antígona à pena capital, mas Creonte, mesmo abalado pela contestação da ré, resolve não interceder a favor do filho, pois assim acabaria mostrando fraqueza ante a população e possivelmente seria despojado, afinal é melhor ser temido a ser amado.

Antígona é condenada à inanição numa caverna, sem que lhe fosse concedido direito ao matrimônio com Hemon. Corifeu com pena da condenada, até tenta interceder ao seu favor, mas em vão.

O tirano, após sua sentença, começa a ser tomado por dúvidas e vai consultar-se com Tirésias, o vidente. Este prevê grandes desgraças para o rei caso ele insista com a perversa condenação.
Creonte, arrependido de ter aplicado a pena capital à nora, ordena sua soltura, mas um mensageiro chega lhe trazendo más notícias...

Bem, não posso ir além senão estragarei o final do livro. Porém, deixo aqui a sugestão para a leitura. O embate entre o Direito Positivo (dos homens) em face do Direito Natural (da natureza) é antigo, talvez até mais do que o próprio Direito em si, como pudemos ver na tragédia resenhada. Hodiernamente, temos o manjado conflito: aborto legal (d. positivo) X direito à vida (d. natural), pois a vida é considerado bem supremo para o ius naturae ; legitimidade para velar seu consanguíneo X obrigatoriedade de obedecer a Lei.

É a escolha de cada um. Dizem:
-se a lei for injusta, largue a lei a abrace a justiça!
e outros dirão:
A lei é dura, mas é a Lei.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Será a liberdade uma prisão?




Vocês já ouviram a música infinita highway dos Eng. do Hawai??? É uma letra extensa sobre a grande e infinita highway da vida? Num dos seus versos o Humberto canta:

Escute garota, o vento canta uma canção
Dessas que a gente nunca toca sem razão
Me diga, garota: "Será a estrada uma prisão?"
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre
Se tanta gente vive sem ter como comer

Eu acho que a estrada é como a vida, e nós somos livres??? Quanto vale nossa liberdade??? Somos livres do que??? De quem???
Será que na verdade estamos presos idéias, moldes, costumes, afinal existe liberdade ou será isso mais uma utopia para artistas sonharem com um mundo mais igual, menos desumano. Não sei dizer se somos livres ou se estamos presos. É uma questão de ponto de vista para começo de pensamento. Se você acha que o fato de você não poder sair pelado na rua e não ser punido é uma prisão, dai realmente vivemos dentro de uma sociedade castradora de seres que desejam ser felizes mas que não podem agir dessa maneira em qualquer lugar. Mas somos livres se você pensar que existem várias praias de nudismo pelo litoral onde ficar nu é requisito para entrar na areia. Existe sempre um local apropriado para tais fantasias ou desejos mais estranhos, ou menos normais. É por isso que existem lugares como casa de swing, praias de nudismo, baladas de música eletrônica e pubs que tocam rock n' roll. É a nossa liberdade de ir e vir, our freewill. Ser ou não ser, é a questão, Tupi or not not tupi? Como fizeram os modernistas.

Ser artista é também brincar com o senso moral e ético de seu meio ambiente. já que lidamos todos os dias com a realidade da vida, gostamos de imaginar, romantizar ou extrapolar sensos, idéias de como seria algo diferente. A nossa liberdade está no mundo da fantasia, das idéias, lá somos livres, somos quem queremos ser, não quem podemos ser. Lá nada tem limite e se pode tudo a qualquer hora. Ai por sermos humanos, lidamos outro aspecto da nossa natureza animal, o excesso de liberdade também nos prejudica, pois a falta de limite nos torna selvagem e irracional. Podemos até virar bichos.

Outro dia estava contando pra minha namorada que me sinto incomodado com espelhos, que os achava muito agressivos. Disse a ela que quando ficava triste evitava me olhar no espelho de manhã pois não queria ver a realidade do estava acontecendo comigo, preferia ficar no mundo da fantasia, do faz de conta, onde eu poderia ser quem eu quisesse. Na verdade me sentia mal de me ver meio acabado, com aparência fraca. Toda vez que faço algo de errado, evito me olhar no espelho, pois acho que ele me julga sem piedade, tenho que me acalmar primeiro dai me olhar. Neste caso o espelho se torna um objeto de punição, que me prende, que me castra. A falta do espelho é a minha liberdade, mas eu preciso uma hora me olhar, assistir meu reflexo, me enxergar pois isso me ajuda a sempre me situar onde e como eu estou. Imagina se fossemos invisíveis, se não pudemos enxergar o nosso próprio reflexo. Nossos sensos morais e éticos seriam outros, nossos valores seriam outros, não sei dizer que valores seriam esses, mas certamente a vida seria bem diferente. Tanto faz alguém correr pelado na rua, ninguém vai ver. Como os criminosos seriam presos se fossem invisíveis e etc...
Será a liberdade uma prisão, eu acho que talvez, e vocês?

inté
Gab

sábado, 27 de dezembro de 2008

Creator - Lemonheads




Muitos, assim como eu (que já foram geração emetevê), somente conheceram aquele Lemonheads que tocava a já manjadíssima Mrs. Robinson (do Paul Simon) ou "Into Your Arms" (Robyn St. Clare) lá pelos idos de 92, 93 e depois pra nunca mais se ouvir falar.

Bem, quando o Evan Dando passou pelo Brasil, eu estava assistindo o show do magnífico Pixies em Curitiba, por isso não deu tempo de vê-lo em São Paulo. Mas pelo que me falaram, não deixou saudade.

Um belo dia, resolvi adquirir aquela coletânea dos cabeças de limão (The Best of the Lemonheads: The Atlantic Years, 1998) e gostei muito do material off-mtv e off-radio. Assim, comecei a torrar uma grana com o restante da discografia.

Pesquisando pela internet (mais precisamente, na quadriloqüente[!] Wikipédia), descobri 3 discos que me faltavam para magnanimar-me indie: Hate Your Friends (87), Creator (88) & Lick (89).

Mas havia algo de estranho(!?), Lovey (90) diferentemente dos outros, já apresentava uma sonoridade um tanto anormal. A única cabeça conhecida fora o próprio ED, era o grande baterista David Ryan. Do resto, não conhecia ninguém!? Aliás, meu primeiro álbum, não foi a coletânea e, sim o “paralelo” Around. O Lovey continha algumas músicas que eu curtia no Around, mas só aquelas não tocadas ao vivo possuíam a tal ‘pegada’ anormal. Li'l Seed e (The) Door contiam frituras de guitarra muito distante do mundinho punk dos independentes. Aí eu fiquei conhecendo quem era T. Corey Brennan.
Mas tudo bem, não é deste disco que venho falar, voltemos aos três iniciais:
A novidade para mim, foi que, ao contrário do unilateralismo da figura do ED que eu estava acostumado, uma nova voz apareceu nestes álbuns. Alguém que até então eu ignorava. Descobri que o Lemonheads havia nascido dual, muito punk e extremamente mais criativo do que eu podia imaginar.

O Lemonheads nasceu em 1986 como The Whelps, formado por dois colegas de uma escola secundária em Boston (MA). O primeiro homem era o já conhecido Evan Dando, mas a novidade ficava pelo fato de haver também um segundo primeiro-homem: Ben Deily.
O engraçado disso tudo está no fato de que BD não era um bom cantor (hoje em dia já está melhor), não era o 2º guitarrista (até porque era o baterista) e não era o principal compositor. Mas, mesmo assim, havia algo de mágico no ar.
Comecei ouvindo o primeiro disco (Hate Your Friends), que nesta edição já incluía o primeiro EP (Laughing All the Way to the Cleaners, 86), com o baixista Jesse Peretz, que mais tarde se tornaria cineasta e diretor de vídeo-clipes (muitos inclusive do Foo Fighters). Algumas faixas ainda traziam o baterista Doug Trachten, mas este sumiu pela história.

Tudo o que eu posso dizer é que HYF é um prato-cheio para aqueles que cresceram ouvindo Bad Religion, Bad Brains, Ramones, Sex Pistols etc. O CD é mais puro e doce caldo punk e nada mais. Pois não espere nada com mais de 3 (3 minutos, 3 acordes, 3 refrões). ED e BD revezam nas composições, nos vocais, na bateria também. Tudo bem tosco e muito maravilhoso. Destaques para Glad I Don’t Know, Rabbit, Second Chance, Hate Your Friends, Ever e Sad Girl.

Porém, saindo da lógica natural, pulei o 2º CD (Creator) e fui direto pro 3º (Lick).
Lick é o que há de mais bizarro em toda a discografia. Teoricamente, o disco saiu à fórceps, mas saiu muito bom. São 5 inéditas (3 do ED e 2 do BD), 2 regravações e 2 takes do primeiro disco e um cover (Luka da Suzanne Vega).
O casting é quase o mesmo do HYF, com a diferença da entrada do Corey Loog Brennan na guitarra, fazendo as frituras à rock farofa e cantando em italiano (Cazzo di Ferro).
O saldo é positivo, mas depois desse Frankenstein, BD retirou-se da banda, prometendo processar o ED caso este cantasse alguma de suas músicas e descrevendo toda essa fase numa canção vingança (Blockout, cantada pelos Pods). PS: hoje em dia já está tudo bem entre eles. Destaques para: Mallo Cup, A Circle of One, Anyway & Luka.

Por último, pus Creator para tocar... Realmente esperava algo como uma continuação de HYF ou coisa que o valha, não sabia que daquele momento em diante, que este seria um dos meus CDs favoritos...

O Album
À primeira audição, sentia que este disco era especial. Como já havia dito, em tese, não haviam elementos extrínsecos que me levariam a acreditar que este era um dos melhores CDs da história. A capa não dizia nada, é bem sem graça. Na contra-capa a formação do primeiro disco, mas pelo menos com um baterista fixo (John Strohm, que tocava guitarra no Blake Babies e em outras da mesma cena).

Ao colocar o cd pra tocar no carro (comprei todos na galeria do rock pagando preços astronômicos) e o som da chuva e sinos entoavam o que eu estava para ouvir:

A primeira faixa, Burying Ground, é cantada pelo BD, bem como é também uma de suas composições. Na abertura é já possível reconhecer as sutilezas das músicas. Não mais o ritmo frenético do HYF, mas uma forma diferente de tocar, abafando as cordas, sussurrando as vozes e alterando a velocidade da canção várias vezes. É até um tanto sofisticado demais para uma banda até então “punk”. Mesmo a letra é diferente e aqui mais especificadamente encontramos uma estrofe de Emily Dickinson: "This is the Hour of Lead -- Remembered, if outlived, As Freezing persons, recollect the Snow -- First -- Chill -- then Stupor -- then the letting go --".
Como um degustador, este primeiro prato era o suficiente para minha inteira satisfação, mas havia mais...

Sunday é a segunda música do BD em Creator. Já mais no espírito pesado, encontramos aqui (bem de fundo, é claro) teclados (!!!)

Assim, quase sem pausa para respirar nos deparamos com a primeira canção do ED no disco (Clang, Bang, Clang, mais tarde regravada em Lovey com o nome Left For Dead). O ponto forte da música é a versatilidade e a rapidez do John Strohm como baterista de um disco só. É impressionante o domínio do instrumento que até então não era sua especialidade. A forma de utilizar os pratos ao invés da caixa destoa muito de toda a discografia do Lemonheads. É uma bela música para abrir um show.

Seguindo a porradaria, Out, pesada mas com uma pegada mais lenta, é a segunda música do ED no disco. Um excerto: “Digging deeper in the sand / Now the water comes up / Cut my finger on the years oh, years oh What can you do? / I'll remember you / He waits for you behind the years oh, years oh Let it go” e podemos nos deparar com um certo lirismo, um subjetivismo poético que começava a germinar aqui mas adquirirá a maturidade plena em It's A Shame About Ray (1992).

A quinta faixa (Your home is where you’re happy) é uma surpresa! Trata-se de uma balada escrita pelo Charles Manson (é, aquele da família insana que matou a atriz Sharon Tate). Parece que nesta época ED viajava pelo campo do satanismo e cultuava o tal Manson (que também foi regravado pelo Guns n’ Roses etc). A priori é uma baladinha bem inocente: Your home is where you’re happy / It’s not where you’re not free / Your home is where you can be what you are / As you were just born to be. Perfeito para um lobo em pele de cordeiro.

Falling, do BD, talvez seja a única música que realmente demonstre estarem ele e ED no mesmo disco. É aparente que estão sendo tocadas duas guitarras, pois até então pareciam duas bandas diferentes tocando no mesmo cd. Falling é rápida, suja e eficiente.

Em seguida já entra Die Right Now, a última música do ED no disco e talvez a sua melhor contribuição até aqui. Mais violenta do que média das suas composições, aqui o próprio não para de urrar Time!!! no refrão enquanto rola uma locução de fundo e depois um solo maravilhoso. Ficou pra história.

E dessa forma, na oitava faixa, o BD retorna quebrando o andamento distorcido de Creator com Two weeks in another town, cuja letra tem tom mais bucólico (e talvez seja o divisor de águas do álbum). A partir daqui quase todo o disco é seu, e foi aí que me surpreendi, pois este era o único cd em toda carreira do Lemonheads que não foi inteiramente escrito pelo Evan Dando, assim como não é ele quem conduz a batuta. É maravilhoso!

A nona faixa deveria ser a regravação de Luka (que posteriormente aparecerá em Lick); mas ao invés disso, a banda resolveu colocar um(a) cover do Kiss, Plaster Caster, que é bem engraçadinha e quebra toda a tensão que as músicas carregam. Cynthia Plaster Caster foi uma famosa groupie que fazia moldes de gesso dos pênis de suas conquistas (Morrisson, Hendrix, Gene Simmons [daí a “homenagem”]).

A décima canção Come to The Window traz um novo elemento que se tornaria o principal instrumento do grupo a partir de 1992: o violão. Não que a música seja uma balada, longe disso! Ainda há a crueza e a distorção das guitarras, todavia, tudo fica mais encorpado, mais melódico. Come to the Window é o exórdio do futuro som dos cabeças de limão iriam começar a fazer.

Em seguida, uma locução do filme Blade Runner anuncia a próxima faixa Take Her Down, que recupera a pegada enérgica das duas primeiras canções. A letra, como toda boa letra, deve ser tão pesada quanto sua música: Collector knows, forever lie /Acid in your throat, don't cry. Da mesma forma é mais elevada do que a media: “Fire on the ocean go / Sun is sinking far below / Glowing cold but always gone / Numb and flashing off and on / Dying in your heart…”. Nada como letristas literalmente “letrados”. Ben Deily é graduado em literatura na Universidade de Harvard desde 1994.

Postcard, a penúltima, à primeira vista, não morri de amores por ela. Parece-me que nem o Jesse Peretz gostou à época. Posteriori, comecei a apreciá-la e entender sua mensagem. Aqui sim, uma balada só ao violão e levemente teclados ao fundo. Hodiernamente esta letra seria considerada “Emo”.

E por fim, para encerrar este majestoso disco, a maravilhosa Live Without. A voz do BD não permite maiores escândalos, mas, mesmo assim, é possível ver que ele dá o sangue neste música. E é isto que faz a diferença, o sangue dado neste disco que quase matou a banda na turnê para divulgá-lo. Live Without é também a última faceta do JS como baterista e outrossim, mais uma vez abusa dos pratos no acompanhamento. A melodia segue a mesma orientação do lado B do LP, mas o diferencial aqui é o frescor, a ardência, a juventude, a garra que os 4 cavaleiros depositaram em Creator. Realmente a emoção e a qualidade das canções é ímpar, sendo Live without seu posfácio.

Dentro do encarte há uma foto da banda, na frente de uma tumba onde há o nome dos integrantes e o nome do disco Creator como epitáfio. Essa fotografia não carece de extensa interpretação, até porque é explicável de per si. O “Lemonheads” morreu neste disco, para posteriormente nascer como o “The Lemonheads”. À primeira vista não existe diferença alguma, mas há!

Posso até estar sendo redundante, mas o que há de mais belo em Creator é a sua força ingênua e juvenil. Uma banda que ainda não precisava cair nas armadilhas do mercado. Não precisava se dobrar para gravadoras ou fãs, tanto é que Luka sugerida pelo empresário foi recusada e substituída por Plaster Caster. Aqui somente entrou aquilo que a banda queria tocar e da forma como gostaria de tocar. Ainda assim, também é primoroso porque é disfuncional. São dois conjuntos no mesmo disco (um Split-cd), são ‘Lemonheads’ e ‘The Lemonheads’ tentando ocupar no mesmo espaço. Com o tempo o segundo engoliu o primeiro, mas para mim o primeiro deixou mais saudade. O segundo está por aí, periclitando, lançando um disco de covers, cometendo auto-plágios. Não que eu não tenha gostado dos últimos lançamentos, contudo tenho a sensação do “já ouvi isso antes”, como se fosse comida requentada.

Numa parte de Live without, BD canta: “New stars, old sky”. Novas estrelas num céu velho. É isso que tento trespassar com esta resenha. Porque acho que este Cd nunca recebeu a atenção que merece. Isto porque os clássicos normalmente não são grandes sucessos, mas são grandes em influenciar e mudar as pessoas. Podem modificar tendências deixando sua marca, embora não a sua assinatura.

Hate Your Friends é o início e Lick é o final. HYF é uma colagem de EP, mais LP mais o que sobrou no estúdio. Lick segue a mesma lógica, é música nova, com velha, mais regravação e cover. Creator é íntegro. Não existem outros músicos tocando além dos 4, Ben Deily, Evan Dando, Jesse Peretz e John Strohm.

Lovey? Lovey já é “The Lemonheads”, é Mercado, é Capitalista.
Creator? Creator é um kibbutz. É comunitário; saiu do esforço, suor e sangue de 4 pessoas esmerilhando seus instrumentos.

Creator é tudo o que a música precisa hoje e não sabe! Não importa o estilo, não importa se toca no rádio ou não (porque Creator não tocou), não importa se está na parada. O que importa é a força, a energia, a dedicação para fazer o melhor.

Creator é Do yourself. Creator diz: -Saia debaixo das asas da mamãe e do papai e faça você mesmo! Seja criativo, seja criador...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a Cegueira X A Peste





ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA:
# Editora: Companhia das Letras
# Autor: JOSE SARAMAGO
# Ano: 1995
# Edição: 23

A PESTE
# Editora: Record
# Autor: ALBERT CAMUS
# Ano: 1947
# Edição: 12

LIVROS SIAMESES (ou xifópagos, se preferir)

Assim como os Irmãos Corsos, gêmeos siameses são unidos por um elo de carne. Fisicamente os livros podem nascer grudados, assim como suas páginas ou capas. Mas nesta resenha, proponho demonstrar o elo espiritual entre esses dois maravilhosos romances que interpretam e devassam os limites da índole humana, quando esta se depara com o terrível.

Primeiramente o irmão gêmeo mais novo, O Ensaio Sobre a Cegueira.
Escrito após o polêmico Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), o livro conta a história de uma epidemia de “cegueira branca”, aonde as vítimas atingidas não veem como os cegos eventuais (imersos na escuridão), e sim, enxergam uma superfície leitosa alva, independentemente de ser dia ou noite.
A primeira vítima, assim como a gripe suína, não vê motivos para alarme, pensando tratar-se de nervos ou estresse. Porém, como um novo-cego, é trapaceado pelo primeiro que lhe oferece ajuda.
Um médico que começa a tratar diversas pessoas que o procuram com as mesmas reclamações, começa a desconfiar de uma epidemia de cegueira. Posteriormente esta se revelará uma pandemia, que se alastra aparentemente pelo ar, quando próximo de uma pessoa contaminada.
O médico acaba vítima da doença, assim como todos que estiveram próximo.
O governo ao deparar-se com a crise aumentando sem aparente solução, resolve isolar os doentes num manicômio adaptado. A mulher do médico sabendo da quarentena, resolve fingir-se de cega para acompanhar o marido.
No manicômio, todos os personagens que perderam as vistas no início do romance se reencontram. Apesar de culparem uns aos outros por sua moléstia, acabam por tentando adaptar-se à nova condição, completamente isolados do mundo exterior.
Como não nasceram cegos, são obrigados a desenvolver métodos canhestros para higienizarem-se, alimentarem-se e conviverem mutuamente.
Ocorre, que cada vez, mais e mais pessoas chegam ao local, e uma nova ordem precisa ser estabelecida sobre o caos de imundície que se instala, a disputa por comida e camas.
Enquanto as notícias do mundo externo não chegam, a superlotação começa a criar distúrbios internos e disputas de poder começam a ser organizadas.
A mulher do médico, como a única que podia ver, tenta dar cabo da situação, mas sua vontade sucumbe ante à horda de pessoas famintas e desesperadas. Passa então a aceitar sua situação e aos poucos vai perdendo a noção de civilidade e adentra as bestialidades humanas estabelecidas.
Aqui deixo de contar as histórias que se passaram dentro do isolamento, para não estragar as surpresas do livro. O filme não aborda muito a imundice e a animalidade (tanto sexual como comportamental) presentes, por isso, no papel é mais interessante comparado ao filme.
Mas posso contar aqui que uma das alas toma o poder por meio da força, subjugando as demais, racionando a comida e deflorando suas mulheres, perante a inércia e covardia dos homens.
Depois de suportar muito abuso, uma das cegas resolve dar uma basta à situação e põe fogo na ala dominante. Dessa forma, a mulher do médico, a única que via, compreende a natureza do seu papel e guia alguns do seu grupo para fora do hospício em chamas. Lá se depara com uma dura realidade: não havia guardas, não havia soldados, não havia ninguém.
Assim, a segunda parte do livro dá início, quando a única desanuviada tem de guiar todo o grupo de cegos, num mundo de cegos... Um mundo onde a condição humana reduziu-se à luta pelo alimento, e nenhuma das regras do status quo ante, serviriam nesta nova ordem. E assim, após a alma humana revelar-se o quão baixo era capaz de chegar, florescia o momento, o momento em que única mulher que podia ver deveria mostrar o que o coração dos homens podia dar de melhor, em termos de amparo ao socorro da escuridão branca e a fome que se alastrava.
Paro aqui para não estragar o clímax do romance, mas peço para repararem no momento em que entram na igreja e todas as figuras estão representadas à imagem do homem.

Agora trato o gêmeo mais velho, a peste, o livro que certamente inspirou Saramago a escrever o ensaio sobre a cegueira.
Todo o romance se passa na cidade de Oran na Argélia. Assim como no Ensaio, num belo dia, todos os ratos da cidade começam a morrer pelas ruas, varandas, fachadas, cafés e demais estabelecimentos. O ratos apresentam um estranho comportamento antes de sucumbirem, vomitam sangue.
O fato passa despercebido pelos concidadãos. Mas após algumas mortes, começa ficar claro que algo não está certo.
Com o aumento dos óbitos, as autoridades sanitárias ordenam o isolamento da cidade, tendo em vista tratar-se de um surto de peste bubônica.
Aos poucos, todos os personagens começam a aparecer...
Os principais são o jornalista Raymond Rambert, que quer a todo custo fugir da calamidade e O médico Dr. Bernard Rieux, que se vê obrigado a salvar vidas em meio ao desinteresse dele pela própria.
O paralelo das duas histórias concentra-se na mesquinhez da histeria. Todos os habitantes fecham-se para o mundo buscando uma ridícula proteção dentro dos seus lares. Neste primeiro momento, sobrepõe todos seus interesses egoísticos sobre a coletividade em geral. Todas as noções de solidariedade, urbanidade, altruísmo e humanitarismo são tão logo abandonadas.
Mas no decorrer das mortes e da iminência desta, o espírito humano aos poucos volta a refletir.

Destarte, as histórias, tanto de A Peste, como do Ensaio Sobre a Cegueira, são irmãs de carne e espírito. Ambas abordam o fim e o renascimento das cinzas daquilo que transformou a humanidade no que ela é: o permanente conflito entre nós com nossos pares e superação das diferenças em momentos penosos. Momentos em que nossas paixões e interesses pessoais morrem em prol da comunidade, colocando-nos, às vezes, nossa sobrevivência em segundo plano.

Por isso recomendo a leitura destes dois livros juntos. Primeiro o livro do Camus e segundamente de Saramago, pois um serve como abertura para o outro e também como complemento. O que um não apresenta o outro fornece e assim por diante.

Divirtam-se!

sábado, 20 de dezembro de 2008

EVANGELHO DE TOME, O

Tradutor: LELOUP, JEAN-YVES

Editora: VOZES, 10ª edição (2006)


Uma bizarra curiosidade levou-me até este livro. Após a euforia “código da vinciana”, acabei encontrando-o quase por acaso numa livraria do centro de São Paulo. Mesmo o vendedor tentando empurra-me os outros evangelhos (“melhores”), criei uma profunda estima por este aqui.

Diferentemente do conceito “evangelho” ordinariamente conhecido por nós, este livro é uma em versão completa dum manuscrito copta encontrado em Nag Hammadi, que ao invés de contar histórias ou explicitar doutrinas, apenas lista de 114 ditos (ou logions) atribuídos a Jesus.

A Wikipédia pode detalhar melhor os detalhes arqueológicos e históricos dos evangelhos apócrifos.

A novidade que me simpatizou está no fato de que aqui, oposto às doutrinas oficiais “Canônicas”, este testamento “Herético” remete a recomendação de Jesus para que ninguém faça aquilo que não deseja ou não gosta e a ênfase não está na fé, mas a descoberta de si mesmo. Conhece a ti mesmo (Nietzsche, gnôthi seautón / genói hoios essí), pois é lá aonde está o verdadeiro reino, não acima, nem abaixo, mas dentro de nós.

O ineditismo foi chocante pra mim. Até agora não consegui digeri-lo por completo.

Sendo que outra surpresa, foi a inutilidade de intermediários para se conversar com o Próprio Deus. Pois este está em qualquer lugar, sendo também desnecessários prédios de pau e pedra.

Com certeza deve incomodar mundos e fundos, pois todas as instituições religiosas certamente ruiriam com esta máxima, como um dominó:

-Se não precisas de um templo, não precisas dum pastor, se não precisas de um pastor, não necessitarás de dar dízimos... e por aí vai. Não é à toa que foi proibido por muitos séculos.

Devo admitir, ler o evangelho secamente é uma aventura e tanto, já que o texto tem sua complexidade. Por isso recomento este livro, que fornece alguns comentários sobre os logions, tornando a leitura mais agradável e as idéias implícitas mais compreensíveis.

É revelador, É incitante. Tem todas as características para mudar o pensamento de qualquer um.

Altamente recomendado.