quinta-feira, 9 de julho de 2009

Augusto dos Anjos - Eu


Eu e Outras Poesias
Augusto dos Anjos

Ed: Matin Claret

Preço: R$ 10,80

Essa coletânea foi um presente da minha (à época) namorada. Foi uma boa surpresa.Esse livro é um conjunto de excertos seletos que reúne o original "Eu" (1912), o único lançado em vida do autor, acrescidos de alguns poemas perdidos reunidos por Órris Soares.

O bom da poesia apresentada, além de toda escatologia, ideias suicidas e litros de sangue, são as palavras pouco usuais para... hum.. poema. O autor reporta-se mais a termos médicos aos chavões poéticos como: amor, dor, flor, coração, paixão e demais gabolices da praça.

Mal consegui acreditar quando cheguei ao fim, de tão compenetrado que fiquei. É hipnótico!

Exista também uma versão gratuita no site Domínio Público (delícia! http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv.00054a.pdf), que pode ser facilmente baixada como arquivo PDF.

Um dos meus poemas favoritos é ‘Solitário’:

“Como um fantasma que se refugia

Na solidão da natureza morta,

Por trás dos ermos túmulos, um dia,

Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos contorta...

Cortava assim como em carniçaria

O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!

E eu saí, como quem tudo repele,

-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos!”


Não é macabro?


No fim só pude dizer:- Obrigado meu mô, por este magnânimo presente!

E para você que não leu, compartilhe comigo: O LUPANAR, ÚLTIMO CREDO, O CAIXÃO FANTÁSTICO, A UM CARNEIRO MORTO, VOZES DA MORTE, OS DOENTES, O MARTÍRIO DO ARTISTA, DEPOIS DA ORGIA, POEMA NEGRO, O MEU NIRVANA, O SARCÓFAGO... entre outros graciosos, calorosos e amorosos versos.


Enjoy!


PS: Augusto dos Anjos é tudo o que um pagodeiro precisa ler.

sábado, 20 de junho de 2009

Palavras escondidas na internet

Meio sem autorização, achei esta maravilhosa poesia sobre a "marvada".
Realmente, hoje em dia, tem que garimpar muito pra achar boa literatura na rede. Nossas vidas cada vez mais a mil, mal permitem parar, analisar e se entreter com uma singela poesia.


Se da pinga abusa,
o zóio mole logo acusa,
e não pode deixar
a pinga no chão pingar...
Se cai um pingo de pinga,
e no rosto respinga,
vão dizê que tá bebo cas pinga...
Ara, o pingo da pinga,
quando respinga,
é socê munto pingou...
Intonce é quando
a pinga pinga,
e nesse pinga-pinga,
vai pingar
onde não deveria pingar...
Pinga se pinga pra drento,
causidique se pinga pra fora,
é porque exagerô,
e bêbaço ficô...
Aí, a pinga pinchô ocê no chão...


Marcial Salaverry

© Copyright Prosa & Poesia - Direitos Autorais Reservados


Caso quem detenha os direitos sobre a obra acima queira retirar o texto do meu blog, é só me mandar um email.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

http://www.dominiopublico.gov.br



Não seja bobo, se quiser ler livros clássicos gratuitamente acesse o link acima e desfrute de todas as maravilhosas obras humanas que estão em domínio público. Não só textos, mas sons e imagens também. Desfrute do conteúdo e repasse a cultura para frente, vamos espalhar o que a humanidade fez de melhor.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Os 10 melhores discos de capas azuis

Do jazz ele é o rei e a coroa ninguém lhe tasca. As gravações da Blue Note sempre foram de boa qualidade e as seleções musicais para a apresentações das casas da BN ainda melhores. Dos álbuns azuis de jazz está a par do Blue Train do John Coltrane. Grande disco. Neste Ballads & Blues encontrar-se-ão baladas diversas que um pouco fogem às canções frenéticas da fase "rock" de Miles. Por isso coloco na lista, como um dos dez mais azuis de todos os tempos! Destaque para I Waited for You, Yesterdays e How Deep is the Ocean.

Engraçado como os discos de prisão são tão bons. Este não foge a regra, os Cramps tem seu show, Johnny Cash seu lp country e BB. King, rei do blues, live in Cook County Jail.
A gravação é meio tosca, o audio é ruim, mas é lendário!

Destaques: Three O'Clock Blues/Darlin' You Know I Love You, How Blue Can You Get? e Every Day I Have The Blues.


O último disco em vida de Renato Russo remete a uma carta de despedida. Cru, melancólico, raivoso, simplesmente maravilho. Renato não conseguiu gravar os vocais devido à saúde debilidade, ficaram as vozes guias, quero dizer, o fiapo de voz. Mas é isso o que torna uma obra prima, pois se trata de um disco de entrega, o último suspiro, o melhor de todos. É possível traçar um comparativo se escutar a música primeiro de julho (1994) e depois as demais (1996). Fico feliz que o Legião tenha feito este esforço final, valeu a pena apesar de tudo.
Destaque para: todas.

A estréia do Weezer é demolidora. O disco é totalmente energia bruta em estado juvenil. Buddy Holly, Say It Ain't So e Undone -- The Sweater Song tocaram bastante na rádio e tv. Mas My Name Is Jonas, The World Has Turned And Left Me Here e Surf Wax America são arrasadoras também e não devem nada aos singles. Este disco de estréia é importante também pois tinha o (excelente) baixista Matt Sharp no rol dos músicos que tocaram no cd e, da mesma forma, foi uma época que o Rivers Cuomo abria espaço para a composição dos demais instrumentistas. Talvez por isso seja o melhor da discografia, nota 10.


Não foi um grande sucesso, mas mesmo assim compõe minha lista. Saindo um pouco da linha habitual do rock do Rage Against the Machine e do cd de estréia da banda, as músicas tem apelo mais melódio e calmo. Tavez não soe tão bem à primeira audição, mas depois, aos poucos, vai conquistando seu espaço. Mais tarde, não dá pra parar de ouvir.

Lançado em 2005, destaques para Be Yourself, Doesn't Remind Me e Out Of Exile.



O último disco do Baden de "inéditas" é o que você vê na capa: Powell & seu violão, assim mesmo, minimalista. Pouca percussão, pouca voz e nenhum canto. Muito bem executado, assim como a Tempestade do Legião Urbana, é seu cartão de despedida deste mundo. Vale muito a pena.
Destaque pra tudo.




O submarino é amarelo, mas a capa é azul. Lançado em 1999, traz o melhor do lp original, exceto pelas (ainda bem) faixas instrumentais do George Martin, ufa! A música Hey Bulldog ganhou uma nova mixagem, mas A Day in the Life foi excluída. Bem, pode ser encarado como uma coletânea da fase 1968 do Beatles, é 3x1, porque traz o suprassumo do Sgt. Peppers, do Magical Mystery Tour e do próprio Yellow Submarine antigo.

Destaque para todos os clássicos, exceto When I'm Sixty-Four (que eu acho meio chata).



Sem palavras, compre, pegue emprestado, grave, tatue, roube este disco! É o disco que veio pra sepultar o rock (ainda bem!).
A potência de Nervermind não está no som, mas no contexto. Não contextual, mas contestador. Pra mim, o melhor momento da música (ouço desde o lançamento até hoje), pois a afinidade celestial de 3 pessoas nunca antes na história desde... blá blá blá, a música fora tão colocada em sentimento tão bruto. Singelamente é o álbum que tirou o batom das paradas e colocou o pau no ouvido das pessoas (no pior sentido). Nunca se repetirá.


Rosenrot é uma coletânea de b-sides do album anterior Reise Reise. Em tese é um disco de "sobras". Mas não se poderia imaginar o quão maravilhosas eram essas sobras. Como um disco de 'lado b' não tem que necessariamente seguir um roteiro, a salada de sons fica a cada hora mais interessante. No mesmo espaço encontram-se a pop Benzin, o hino gay Mann Gegen Mann, a pesada Rosenrot, a balada Stirb Nicht Vor Mir e a flamenca Te Quiero Puta!. Fenomenal...


Por fim, o azul dos azuis.

O Faith No More deu início à suas atividades no começo de década de 80, mas foi somente com o vocalista Chuck Mosely que a formação do grupo se consolidou. Com Chuck foram lançados os discos We Care a Lot (85) e Introduce Yourself (87). Porém, devido aos vícios do vocalista, a banda o despediu e contratou Mike Patton no seu lugar.
Com Patton nos vocais a banda finalmente alçaria o sucesso com o disco The Real Thing (89). Porém a nova roupagem do FNM seria alvo de uma saraiva de críticas do vocalista do Red Hot Chili Peppers, Anthony Kiedis, que os acusava de imitação barata. Patton usava o mesmo cabelão que Kiedis, o Faith No More tocava o mesmo Funk Metal dos Red Hot Chili Peppers, ambos os vocalistas cantavam em rap e até os clipes coloridos se pareciam. Talvez a banda tivesse realmente percebido que era hora de mudanças. Angel Dust (92) veio então com o intuito de dar uma nova roupagem para o grupo.

Quando foi lançado, trouxe às rádios e tv's os hits Midlife Crisis, A Small Victory (minha favorita) e Easy. Mas a cereja do bolo ficou definitivamente com as composições que não emplacaram nas paradas de sucesso, como as bizarras RV, Malpractice e Crack Hitler, que abusavam de efeitos sonoros, colagens e embalos circenses. O som era muito inovador para os ouvidinhos comuns e por isso, talvez, não tenha caído no gosto do mercado. Mas não eram todas as músicas experimentações, existiam ainda as pop's Everything's Ruined, Kindergarten e Be Aggressive, embora nenhuma dessas faixas, assim como o disco em geral, trazia o vocal rapeado e a música funkeada dantes. Após Patton cortar as madeixas, cortou também os laços com o The Real Thing.

Angel D também apresentava um rock sem muita guitarra, como podemos ver nas músicas Land of Sunshine, Caffeine, Smaller and Smaller e Midnight Cowboy. O guitarrista Jim Martin detestou a guinada e sua participação autoral é quase nula, com exceção de Jizzlobber, sua única contribuição (mas mesmo assim, um ano depois já estava na rua).

A importância de AD deveu-se ao experimentalismo e à autenticidade que o cercou. As faixas mal são cantadas, são faladas. O baixo encontrava-se acima da guitarra. As letras eram agressivas demais para o padrão vigente à época, afora que é delicioso de ouvir, pois parecem várias bandas num cd só. Compreende um ineditismo inexistente no nosso século, as bandas hodiernas precisam ouvir os hinos deste disco, para talvez, quem sabe, saiam um pouco do bunda-molismo atual.

Às vezes é preciso perverter a ordem, mesmo que o custo seja alto demais.




domingo, 19 de abril de 2009

Poder de um Jovem/ The Power of One - Bryce Courtenay


O motivo de estar postada a capa do livro em inglês deve-se ao fato da minha leitura ter sido realizada no idioma original (inglês), afinal o autor desse romance é o escritor australiano Bryce Courtenay, e provavelmente este livro não foi traduzido para o português. Contudo a história pode ser familiar a alguns de vocês, já que em 1992 foi lançado um filme baseado na obra, contando com atores de renome como Armin Muehler-Stahl e Morgan Freeman,
e o filme fez muito sucesso, inclusive no Brasil, apesar da adaptação ter simplificado demais a narrativa.
Recomendo este livro às pessoas que pensam (ou pensavam como eu) que entendem alguma coisa sobre a África do Sul, pois nesta leitura aprendemos quais e como são as diversas nações que compõem a população deste país, com suas 7 línguas e peculiaridades tribais que ainda não são compreendidas mesmo hoje. Basicamente existe uma nação dominante na África do Sul durante o desenrolar da história (entre décadas de 20/50) , que são os ingleses; estes tem o poder militar e político, mas são uma minoria, odiada por outros brancos: os Afrikaners (descendentes dos holandeses, alemães e franceses que haviam chegado 300 anos antes), porém tolerada por uma maioria negra, conformada com os abusos e opressões por parte do estado e população Euro-descendente.
O que me atraiu neste livro principalmente foram as lições de determinação e ousadia, além de acompanharmos a evolução da racionalidade do personagem principal, que começa muito sensível e emocional, e aos poucos torna-se mais calculista e estrategista. Um exemplo disso é a ausência do famoso clichê da "namorada do herói", ou seja, o autor conseguiu evitar a menção do amor ou de qualquer cena romântica ou sensual, o que em minha opinião deixou a leitura mais agradável e fluente, concentrando-se nos fatos, e não em sensações.
A história começa com o garoto inglês Peekay, dotado de etnia inglesa porém vivendo em território predominantemente "Afrikaans", ele sofre discriminação racial em sua escola, porém apesar de resistir corajosamente as humilhações e agressões de seus "coleguinhas", ele descobre no boxe uma chance de se vingar de seus oponentes, e vai aprender com um descendente de africanos numa prisão local. Conforme passa a conviver mais com as outras tribos africanas, ele passa a aprender sua línguas, ética e misticismo, porém ele é esperto o suficiente para não deixar nenhum branco sabendo, o que lhe causaria problemas naturalmente. Enquanto dedica-se às lutas, torna-se amigo de um pianista que lhe ensinará como se tornar observador, e apreciar a música, a natureza e o conhecimento científico.
Enquanto o tempo passa, o personagem vai percebendo as mudanças de sua sociedade, e conforme vai se aperfeiçoando fisicamente e intelectualmente, começa a participar ativamente na
ajuda humanitária, educacional e material para os povos segregados por um regime institucionalizado ao final da segunda guerra mundial, quando o partido nacionalista, fundado pelos Afrikâneres derrota os ingleses nas urnas, e cria então o sistema do Apartheid, motivando o exílio do nosso herói para outro país para trabalhar como minerador: a Rodésia, onde encontra mais violência e opressão, porém de uma forma desorganizada e não tão direcionada como na África do Sul.
Longe de sua família, amigos e inimigos, ele consegue portanto chegar a um ambiente similar ao inferno, porém lá finalmente descobre o valor da amizade, da cooperação e da responsabilidade, para poder sobreviver em um local de altíssimo risco de mortalidade. Ao poder enxergar um futuro tão sombrio para a África ele se conscientiza inviablidade de seus ideais de ajudar os africanos, e vai embora para a terra de seus descendentes no Reino Unido em busca do sucesso, principiando um ritual a ser seguido até os dias de hoje: o retorno voluntário dos brancos à sua verdadeira terra (Europa).

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Terceiro Homem - Graham Greene


Greene, Graham
O terceiro homem, LP&M Pocket- 2008
Preço Sugerido: R$ 8,00

Bem, esse eu peguei para ler no metrô. Na ida já estava na metade e na volta já havia acabado.

Tão bom quanto "Nosso homem em Havana", este livro nasceu como um argumento direto para o cinema. Seguindo o estilo 'detetive de guerra', a narrativa é rápida e intrigante, Graham, parte para Viena, que, após a derrocada da 2ª guerra é partilhada, assim como a Alemanha, por quatro nações (Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética), Rollo Martins, escritor de subliteratura, à convite de seu amigo de infância Harry Lime, viaja até a cidade para reencontrá-lo após longo período de distanciamento.

Ao chegar, descobre que seu amigo falecera, aparentemente em um acidente banal.

No cemitério, para acompanhar o enterro acaba conhecendo a ex-namorada de Harry, Anna Schimdt, bem como o policial Calloway, da Scotland Yard, que não explica os motivos que o levaram até ali.

Aproveitando-se da ocasião e da queda de Martins por álcool, Calloway lhe oferece uma bebida e no bar acaba contando que Harry era investigado pela polícia, porém não lhe informa o porquê.

Financeiramente arruinado, Martin, é ajudado pelos estranhos colegas do seu falecido amigo, mas começa desconfiar do excesso de gentilezas que recebe por todos os lados. Parte então pela cidade para tentar compreender como era vida de Harry no ambiente caótico da metrópole ocupada, iniciando uma atabalhoada investigação.

Tudo parecia encaixar-se razoavelmente bem, a não ser pelo fato de que após conversar com o ex-vizinho de Harry este aparece morto. Dessa forma, começam a ser desencadeados eventos cada vez mais parecidos com a ficção barata de seus livros, com a diferença que desta vez, Rollo, poderá ser o próximo a morrer. Ao invés de partir o mais rápido possível, o protagonista permanece para resolver o mistério e acaba apaixonando-se pela ex-namorada de seu falecido amigo, que assim como ele, corre perigo.

Da mesma forma, Rollo Martins deverá também correr contra o tempo para desvendar quem era o terceiro homem presente na hora da morte de Harry Lime, salvar sua paixão dos Russos e descobrir o terrível segredo de seu amigo.

Pode não ser a melhor sinopse que já fiz, mas está aí. Vale a pena ler o livro.
Boa leitura.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

ANTÍGONA (de Sófocles)

Antígona,
Sófocles, ed: L&PM Pocket, vol. 173, 2006


"Picket lines and picket signs
Don't punish me with brutality
Talk to me
So you can see...
what's going on".

Marvin Gaye

Poderia ser considerado uma tragédia, mas não é.

Antígona de Sófocles, que arrumei meio por acaso na Martins Fontes, veio bem a calhar. É tanto uma tragédia em si, como um conflito metafísico e ontológico entre o positivismo e o jusnaturalismo. Não esperava tanto!

Vamos ao contexto:

Terceira parte da triologia tebana, Antígona, filha de Édipo e Jocasta, que tinham mais três filhos, Etéocles, Ismene e Polinice. Foi a única filha que não abandonou seu pai, Édipo, quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos. Seu irmão, Polinice, tentou convencê-la a não partir do reino, mas Antígona, altruísta, acompanhou o pai em seu exílio até sua morte.
O início do livro se dá quando volta de Tebas e encontra seus irmãos brigando pelo trono.

Ocorre, que pela violência da luta, ambos morrem. Creonte, tio deles, herda o trono, faz uma sepultura com todas as honrarias à Etéocles, e deixa Polinice onde caiu, proibindo qualquer um de sepultá-lo sob pena de morte.

Antígona, inconformada, tenta convencer a irmã (Ismene) a enterrá-lo, pois, quem morresse sem os rituais funebres, seria condenado a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado.

Desaconselhada pela irmã que teme a fúria do Tio, bem como a pena capital imposta por este a quem tivesse a audácia, enterra mesmo assim Polinice com as próprias mãos.

Creonte ao ser avisado de que alguém enterrara seu desafeto, culpa um dos guardas de plantão e manda desenterrar o insepulto.

Após de descobrir que o cadáver recebera novamente o ritual fúnebre, Creonte ordena a soltura do guarda e posteriormente, conhecendo a autoria, manda prender Antígona e Ismene.

Creonte aqui representa o Estado Tirânico, é o juiz, o júri e o carrasco num só. Soberbo e cegado pelo poder, não quer dar ouvidos aos argumentos das acusadas, mas sim aplicar imediatamente a letra fria da Lei, condenando ambas à morte. Mas seguindo as palavras do velho e sábio Corifeu, deixa-se convencer a dar ouvidos às irmãs. Ismene, apesar de covarde, assume toda a culpa. Antígona desmente a irmã e esta é imediatamente libertada.

Daí, ao defender-se sozinha, Antígona, invoca o direito natural, que tem por fundamento a razão divina, perfeita e acabada e que, por isso, seria maior que a lei dos homens, imperfeita e incompleta. Apela aos deuses gregos, pois esta lei (jus naturae) já estaria cravada no coração da humanidade, sendo impossível de ser alcançada pela tirania de seu tio (jus civile):

CREONTE
- mesmo assim ousaste transgredir minhas leis?
ANTÍGONA
- Não foi, com certeza, Zeus que as proclamou, nem a Justiça com trono entre os deuses dos mortos as estabeleceu para os homens.

Assim, a personagem, abala todo o sistema legal vigente. Ao perceber que Antígona planta no coração dos cidadãos o questionamento à ordem estabelecida, fica mais evidente à Creonte a necessidade de eliminar sua insurreta futura nora.

Vendo que sua noiva seria iminentemente executada, Hemon, apela ao pai para que não condenasse Antígona à pena capital, mas Creonte, mesmo abalado pela contestação da ré, resolve não interceder a favor do filho, pois assim acabaria mostrando fraqueza ante a população e possivelmente seria despojado, afinal é melhor ser temido a ser amado.

Antígona é condenada à inanição numa caverna, sem que lhe fosse concedido direito ao matrimônio com Hemon. Corifeu com pena da condenada, até tenta interceder ao seu favor, mas em vão.

O tirano, após sua sentença, começa a ser tomado por dúvidas e vai consultar-se com Tirésias, o vidente. Este prevê grandes desgraças para o rei caso ele insista com a perversa condenação.
Creonte, arrependido de ter aplicado a pena capital à nora, ordena sua soltura, mas um mensageiro chega lhe trazendo más notícias...

Bem, não posso ir além senão estragarei o final do livro. Porém, deixo aqui a sugestão para a leitura. O embate entre o Direito Positivo (dos homens) em face do Direito Natural (da natureza) é antigo, talvez até mais do que o próprio Direito em si, como pudemos ver na tragédia resenhada. Hodiernamente, temos o manjado conflito: aborto legal (d. positivo) X direito à vida (d. natural), pois a vida é considerado bem supremo para o ius naturae ; legitimidade para velar seu consanguíneo X obrigatoriedade de obedecer a Lei.

É a escolha de cada um. Dizem:
-se a lei for injusta, largue a lei a abrace a justiça!
e outros dirão:
A lei é dura, mas é a Lei.