sábado, 5 de fevereiro de 2011

Impersonalidade

O que pareceu bem que podia ser
É não deixaria de poder
Mas tudo o que deveria acontecer
Não sou eu, nem era você

Esperei apenas uma oblação
Pele de cordeiro e lâmina
Foi-se sem meu coração
Para esvaziar a tamina

Tal qual será
O mesmo não quererás
Socorro suicídio
Seria o menor dos perigos

Mas cabalmente te conheço
Em devaneios e lamentos
Mesmo que apague os meus
Manterei os teus

Dê-me pelo fogo
Dê-me tatuagem
Dê-me lembranças

Não!

Dê-me pele de intenso fogo
Dê-me só sua última imagem
E mais nenhuma lembrança

sábado, 8 de janeiro de 2011

O Arquipélago Gulag - Alexandre Soljenítsin

O Arquipélago Gulag - Alexandre Soljenítsin
(Círculo do Livro S/A) R$ 10,00 (nos sebos)

Qual é o valor da vida que não pode ser vivida?
Qual o regozijo de nascer são, livre, mas colocado numa fossa e impedido de mover-se, alimentar-se, dormir ou pensar? Ou numa cela cheia, fétida, insalubre com uma lâmpada ligada por vinte e quatro horas sob sua cabeça? 

Confesso que muitos livros me impressionaram (A Estrada, Ensaio Sobre a Cegueira), outros nem tanto (Amor de Perdição, O Código Da Vinci), mas pouquíssimos conseguiram, de tão profundos, mudar a forma do meu pensamento. Simplesmente é como um recomeço (-parem o mundo pois eu quero descer!). Somente dois: O Evangelho de Tomé e este... O Arquipélago...
A sinopse está em todos os cantos da internet, pouparei-os. Todavia, é mister que se leia antes "O Processo" do Franz Kafka e, também, "1984" ou a "Revolução dos Bichos" do Orwell, para situar-se historicamente. 
Lidos, é preciso adentrar com cuidado, pois a realidade é muito mais atormentadora à ficção. Nem a fantasia conseguiu chegar aos píncaros da verdadeira torpeza humana: -o genuíno moedor de homens. 

Por muitos anos, nas escolas em que estudei (pública e depois privada), fui constantemente doutrinado por meus professores. Já insistiam no proselitismo onanista-soviético pós-muro de Berlim, quando a presidência do Sr. Lula ainda era um sonho distante. Como uma esponja, lá ia eu, todo prosélito, fazer a pregação "pequeno-burguesa" à minha família. Considerando a situação à época (Plano Collor, inflação galopante...) estava meio difícil de encontrar a minha parte "burguesa", mas 'pequeno' era abundante. Meu pai, pacientemente, ouviu todas as minhas abobrinhas. Não falava nada, apenas pedia para que eu estudasse mais.

Só fui entendê-lo muito tempo depois.
Pois, ano após ano, a verdade me veio à tona. Compreendi a Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Entendi o que era ser manipulado pelos professores, entendi que os fins não justificam os meios e, por fim, entendi o que certas pessoas fazem pelo poder (o pudê). Só que ainda não tinha a ideia clara do quanto se podia ir longe... Só percebi esta medida ao terminar este livro: -simplesmente não há limites. 

Muito do que já vomitaram em meus ouvidos resumia-se a "Lenin bom, Stalin, necessário". Stalin combateu Hitler, os Soviéticos chegaram em Berlim antes dos americanos e blá blá blá. Os fatos estão corretos, lindo. Só esqueceram de avisar o que se passava por detrás da cortina de ferro. O que estes 'heróis' fizeram a seu próprio povo e alguns estrangeiros, a que preço se mantiveram no poder e como conseguiram destruir toda a força intelectual de um país a ponto desta nação não conseguir produzir, pelo menos, 1 escritor que prestasse, pois massacraram todo ser que fosse capaz de algum questionamento. Mais impressionante é como conseguiram transformar homens em bois, que de tão mansos, caminhavam ao matadouro sem questionar. É o ponto ontológico do livro: como transforma pessoas em coisas, apáticas, sem paixão, vontade ou iniciativa, ou seja, zumbis.

Obs: aqui preciso fazer um adendo. O livro não é pró yankee, pois narra participações dos aliados na morte de civis inocentes das formas mais sórdidas e covardes possível.

Meus caros, é simples e muito, muito rápido.

1) Tudo sempre começa com uma boa intenção (normalmente uma revolução) a fim de destruir o sistema em vigor, acusando-o de déspota, corrupto etc.
2) Depois, se aliam até inimigos figadais e toma-se o poder pela força.
3) Imposto o novo sistema, matam-se todos os que verdadeiramente (ou não) colaboraram para o antigo regime (sabe aquele vizinho que você não gosta muito? Linchamento é bem útil nessas horas).
4) Liquidando o último "inimigo" é aberta a temporada de caça aos "amigos", ou seja, fabricam-se traições, infidelidades e desvios. Normalmente colhe-se pela tortura uma confissão, algumas denúncias espionagem e voilà, está prontinho mais um julgamento público. Sentencia-se à morte e a população é entretida (por hora) com sangue (só circo, nada de pão).
5) Com a morte de todos os ex-aliados, passa-se ao terror constante do inimigo externo, bem como, dos famosos "desvios" internos. Assim, caça-se à esmo a própria população. O hecatombe é de forma livre e mais sacrifícios são necessários. Pode-se matar de fome, sede, tortura... o importante é manter o medo constante e evitar o questionamento.
6) Depois do nível 5 dificilmente o ditador de plantão perde o poder (todos já estão mortos!). Exterminam-se tantos que é possível que não haja um para contar a história, simplesmente é apagado da memória coletiva, como se nunca tivesse existido.
No último nível, a única preocupação do tirano de plantão é sobrecarregar a população com o culto à sua personalidade e, a cada 10 anos, aniquilar todos seus aliados trocando-os por acólitos mais jovens (e mais doutrinados), naquele mesmo esquema: tortura, confissão, julgamento e morte. Um ou dois inimigos externos também ajudam.

Na hora do abate não pode haver qualquer tipo de compaixão, é preciso matar homens, mulheres, crianças, religiosos, intelectuais, professores, mendigos, inocentes úteis, porém principalmente os ex heróis. No livro, os soldados que lutaram pela União Soviética e viram a vida do outro lado (na Europa),  viram a liberdade, viram que não era preciso passar pela fome,e também os que viram a incompetência do próprio governo eram todos mortos nos campos ao retornarem à pátria. Havia o risco de contar aos outros o que havia além da cortina, de contar que lá a vida era melhor.

Assim, por derradeiro, recomendo muito este livro. É como o fruto da árvore do bem e do mal, é abrir os olhos, é entender as ideologias e militâncias burras, é compreender a gnose da estupidez humana, todo o sadismo ilimitado pelo sofrimento do outro, é o livro que te dará a percepção de identificar o perigo... e, principalmente, é o livro que te ensinará a pensar e questionar, não acreditar em nada do que te dizem... e se for para crer, será na metade do que vê.

E para os psicopatas de plantão é um bom guia de homicídios em massa.


Apenas leiam e tirem suas conclusões.

PS: também sugiro a leitura deste link: http://www.nerdssomosnozes.com/2008/08/arquiplago-gulag.html

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A troco de que?

LEI Nº 12.286, DE 13 DE JULHO DE 2010.
Proclama Olinda a Capital Simbólica do Brasil e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o Em 27 de janeiro de cada ano, a cidade de Olinda, no Estado de Pernambuco, será reconhecida, durante esse dia, como a Capital Simbólica do Brasil.

Art. 2o A cada 50 (cinquenta) anos, durante as comemorações da Restauração Pernambucana e Nordestina, o Prefeito de Olinda e sua Câmara de Vereadores receberão os títulos simbólicos de Prefeito e Câmara de Vereadores Mor do Brasil.

Art. 3o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 13 de julho de 2010; 189o da Independência e 122o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
João Luiz Silva Ferreira

Este texto não substitui o publicado no DOU de 14.7.2010


Alguém poderia me explicar o porquê de tal relevante lei?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

TIM (011)82101199

Me ligam da TIM e perguntam se tenho interesse na portabilidade. É brincadeira!
Nunca forneça dados por telefone, bem como jamais confirme estes dados, mesmo que a pessoa informe seu nome, CPF ou linha.
Operadora que liga de celular?!  Ha ha ha...   só rindo  :(

domingo, 4 de abril de 2010

A Escrava Isaura - Bernardo Guimarães


Raro são aqueles que não conhecem o infortúnio da "Escrava Isaura". Bela & Desejada por muitos,  apresentava um grande paradoxo com seus pares: tinha pele branca. Pois, sendo filha de uma mulata e de um homem branco, acabara suplantando o genótipo dos traços circassianos. Daí seu infortúnio: ser escrava branca, quando a única condição permitida por lei à servidão compulsória e não reconhecimento de seus direitos à personalidade era ser justamente "negro". Pelo visto a antinomia "filho de escravo, escravo é" foi fatalmente superior ao critério hierárquico "só negros podem ser escravos". Dessa forma, por ser uma exceção ao princípio permissivo da escravidão racial, Isaura é uma escrava branca.
Assim, está à mercê de Leôncio, um fazendeiro autoritário que não admite ser contrariado e quer possuí-la a qualquer custo, mesmo sendo casado. Para evitar o iminente defloramento, Isaura se vê obrigada a fugir e o resto é novela. Uma novela boa por sinal.
Gosto da essência deste livro, pois talvez seja a primeira quebra paradigmática racialista do Brasil. Caso Isaura fosse negra, inevitavelmente os leitores de Bernardo Guimarães não compadeceriam de sua personagem. Ao mesmo tempo, o argumento do livro, propositalmente, quebra a perversa lógica que sustentaria a ratio de escravizar e/ou comprar escravos, que é: não há lógica para escravizar. 

Primeiramente, analisando cientificamente, "raça" é um conceito usado vulgarmente para categorizar uma espécie biológica. Espécie é a última das estruturas hierárquicas da classificação científica usada em biologia, procedente do Gênero, que subsome na Família, por aí em diante. Portanto, não poderíamos discriminarmos por raça, pois somos todos Homo sapiens sapiens, com distintos traços, todavia, da mesma espécie. A única vez, em toda história da humanidade em que poderíamos ter-nos disjungido, seria à época em que o Homo sapiens neanderthalensis dividia a terra conosco. Infelizmente neandertalianos foram extintos, encerrando de vez a nossa "racilização". Destarte, é correta a afirmação: "quem tem raça é cachorro" e falaciosa afirmação: "pertenço a tal raça". Em suma, somos todos Homo sapiens sapiens, apesar de alguns não aparentarem carregar o segundo 'sapiens'. 
Demolido o argumento racial, a pintura a seguir apresentada expõe uma outra contradição:  
 
  Não é preciso apresentar traços fenótipos diferentes para se escravizar. É possível subjugar o outro por qualquer motivo: religião, ancestralidade, naturalidade, língua... ou até mesmo os próprios pares. Isaura poderia ser escrava em qualquer sociedade, em qualquer época. Não é preciso traçar distinções. Por exemplo, a todo tempo  nos deparamos no noticiário com reportagens de que certos grupos latinoamericanos exploram seus iguais fábricas clandestinas de tecelagens nos centros urbanos. Famílias inteiras em cortiços trabalhando todos os dias sem descanso. Ou, na mesma situação, os asiáticos, em similar modus operandi. Eu poderia citar: bolivianos! chineses! Nos modelos supraoferecidos, até mesmo brasileiros. Porém, são todos Homo sapiens sapiens submetidos por outros Homo sapiens sapiens, independentemente de peculiaridades externas ou internas diversas, que poderiam ser classificados de outras formas, exceto de "raça".

Daí a importância da leitura e reflexão de "A Escrava Isaura", pois, somente conhecendo o passado se compreenderá o presente, evitando mais erros no futuro. 

segunda-feira, 8 de março de 2010

Gnosticismo

Infelizmente confundem gnosticismo com misticismo. É tanta bobagem que se vê por aí...

Mas também é engraçado pensar numa religião, que não é religião. Não há teto, não há chão, não templo, não há sermão. Somente duas pessoas...

Um pupilo
e Um Mestre.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Série "Parece Ruim.. Mas é Bom" Capítulo I - King for a Day... Fool for a Lifetime

Talvez King for a Day... Fool for a Lifetime seja o disco mais obscuro do Faith No More. Com a saída do guitarrista Jim Martin, a banda perdeu muito em qualidade. Sem guitarrista fixo, o FNM acabou utilizando os serviços de Trey Spruance, da banda paralela do vocalista Mike Patton (Mr. Bungle).



Muitos dizem que é o pior da carreira do conjunto. Não discordo. Porém, por uma razão que até hoje não consegui compreender, é o CD do FNM que mais rodou no meu Player (?!).


Apesar da gravação tosca, poucos inspiradas e do afastamento criativo do tecladista Roddy Bottum, KFDFFL traz um sabor diferente a cada canção, uma métrica exótica e temas intrigantes.


Por não conter "hits", é difícil de enjoar. cada vez que se ouve, descobre-se um som singular, uma passagem não percebida, em suma, é para ser digerido aos poucos.


One-by-One:


A primeira canção "Get Out", composta por Patton, confessa tacitamente o tédio de ir adiante com uma banda sem rumo. É basicamente rock, bastante agradável.


Ricochet, que se segue, teve até videoclipe com baixíssima rotação. Todavia, é bem legal porque cria uma clima de música "fácil" verso-refrão-verso, mas sem explodir. O clímax nunca vem e isso torna apetitosa sua audição. Às vezes é bom ser contrariado.


Uma grata surpresa é a estranha "Evidence". A pérola aqui é o acompanhamento que o guitarrista Spruance faz com o piano de Bottum, tocando ambos exatamente as mesmas notas. O clima soturno da canção gerou um bizarro videoclipe. Ótima pra motéis.


"The Gentle Art of Making Enemies" talvez seja a mais pesada. Bastante simples, provavelmente quem conhece bem a história da banda perceba a tentativa de Patton de transformar o FNH num novo Mr. Bungle. Não conseguiu, contudo deixou uma ótima música.


"Star After Death" é uma bizarra canção estilo standards do jazz. Particularmente gosto, pela quebra do clima que dá ao disco.


"Cuckoo for Caca" talvez seja a melhor das faixas. Patton explora bastante os vocais guturais bem acompanhado pelo baixista Billy Gould. Acho que jamais tocaria nas rádios (por isso é bom!).


"Caralho Voador", assim mesmo em português, é uma divertida tentativa de tocar bossanova. Não conseguiram, nem mesmo as frases em português são bem proferidas, porém dá pra se divertir: "eu não posso dirigir / e agora aparece / meu dedo enterrado / no meu nariz" Dá pra entender?


"Ugly in the Morning", apesar de ser um autoplágio de Cuckoo for Caca, é a última música "estranha". O destaque fica só pela bateria Mike Bordin (hoje na banda do Ozzy). Gosto dos falsetes.


"Digging the Grave", provavelmente a mais pop, não chega a atingir o status de "radiofônica", porém é muito boa. 4x4, bem rock n' roll e assoviável. A melhor participação de Trey como "músico de estúdio". Após "Digging..." toda experimentação é colocada de lado :( para ser recheada por um lado-b repleto de música pseudo-pop. A qualidade cai bastante.


Mais um momento Mr. Bungle, "Take This Bottle", tem estrutura de soundtrack. Defino como "boazinha", só.


"King for a Day", composta por todos os membros do FNM, é uma clara demonstração de enfado e desencontro dos músicos. O som é bom, mas é um pouco arrastado. Aqui fica a sensação de "disco gravado para cumprir contrato". E veja que não é o último!


"What a Day" e "The Last to Know" são duas dispensáveis que somente preenchem linguiça. Não sei o porquê, mas eu escuto (?!).


Meu CD terminava com "Just a Man". Muito parecida com as músicas anteriores, não chega a "salvar" o disco.


Todavia, o que se salva mesmo é o lado-A. Salva pela forma incomum que se apresenta. É bom, pois não é fácil, suave, bem tocado (na verdade é bastante amador). Mas traz desafios sonoros, dissonâncias, e incômodos. O saldo é positivo para quem não se contenta com o usual.






Aproveitem.